“Sabotagem, sem massagem, na mensagem”

Por Giulia Villa Real e Victoria Bassi

Vídeo por Victoria Bassi / Grito de guerra do Slam Resistência

Criado em 1980 nos Estados Unidos, mais especificamente em Chicago, o SLAM acompanhou o crescimento da cultura hip hop, a qual nasceu como uma forma de oposição ao sistema opressor e precário nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque, e tem como principal objetivo dar voz e visibilidade aos que jamais tiveram, através de batalhas de poesias. O “grito de guerra” diz muito sobre o  Slam, movimento cultural de forte teor político.

Logo após o surgimento do primeiro slam brasileiro – o ZAP! Slam, criado por Roberta Estrela D’Alva (apresentadora do programa de TV “Manos e Minas” na TV Cultura) em ação conjunta com o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos – os seguintes rapidamente foram se consolidando, como é o exemplo do Slam da Guilhermina e do Slam da Roosevelt. O primeiro acontece toda última sexta-feira de cada mês, e o segundo toda primeira segunda-feira do mês, trazendo novos ares para a cultura que muitas vezes falta nas regiões. Os lugares escolhidos não são à toa: buscam ser acessíveis para todos que quiserem participar ou apenas apreciar o momento de expressão e reflexão.

Lucas Afonso, 24, slammer, MC e fundador do Slam da Ponta que acontece em Itaquera, também na Zona Leste de SP, conheceu o ZAP! Slam em 2013 e a partir daí não parou mais de frequentar os eventos. Hoje, já conquistou títulos: foi campeão do Slam BR, campeonato nacional de poesia falada em 2015 e em 2016 foi até a semifinal da Copa do Mundo de Poesias na França.

Slams X Saraus

A poesia falada e a literatura periférica unem os slams aos saraus, já que o público das duas manifestações culturais muitas vezes coincidem. A interação grande entre os participantes, a preocupação com temas culturais, o espaço de expressão, são algumas das características em comum dos dois movimentos. O que os difere é que o slam dialoga mais com o público jovem, talvez pelo caráter “competitivo”, existindo um crescente número que exercita o ouvir. O movimento contribui na autorrepresentação de minorias, como mulheres, negros, lésbicas e gays e moradores das periferias em geral.

“Acredito que o papel dos slams de poesia e dos saraus, seja proporcionar a possibilidade do sujeito de ser ouvido. O acesso à cultura ainda é muito restrito para quem vive às margens. O bairro de São Miguel, onde fica o Jd. São Carlos, tem aproximadamente 400 mil habitantes, uma biblioteca pública e uma casa de cultura”, explica Afonso, que nos pergunta como surge um poeta? Como surge artista em uma região assim?

Arte X Slam

A arte é um dos pilares que mantém o Slam tão vivo e popular, pois homogeneíza o acesso à inclusão, a interpretação de poesias, a arte simbólica e falada. Lucas sempre esteve ligado à arte: “Minha mãe cantava e tocava violão, então desde o útero eu tenho contato com a arte. O contato com a literatura e com a poesia veio na escola, ainda no ensino fundamental. A literatura que me apresentaram, nem sempre me agradava. Um divisor de águas na minha vida, foi quando percebi que as letras de RAP também eram poesia. Inclusive, nela encontrei o meu canal de expressão. Descobri uma forma de ser protagonista da minha verdade”.

Assim como Afonso, os eventos de slam atraíram e atraem mais e mais pessoas. É fácil entender porque as competições se tornaram tão populares. Os slams deram vida à um campo da arte contemporânea que permanecia adormecido e por causa da sua dinamicidade conseguiu envolver um público que mantinha certa distância da arte poética. Mas esse não foi o único motivo do slam ter conquistado tanta popularidade. A diversidade e a inclusão são elementos mandatórios nesses eventos em que pessoas de todas as orientações sexuais, gêneros, classes sociais e crenças se juntam, em comunhão, para contemplar e apreciar as rimas desses artistas. Nesse momento a protagonista passa a ser a poesia. É uma forma de democratizar a poesia que ficou ligada por muito tempo aos intelectuais e dar acesso a uma prática cultural que é pouco incentivada nas quebradas.

O crescimento dos Slams

Hoje, os slams de spoken words estão experimentando um momento de ascensão na cena cultural urbana, tendo mais de 25 só aqui na capital paulistana e totalizando mais de 30 em todo o país. “A internet é um instrumento que cria uma extensão para esse movimento. Vou citar, por exemplo, o Slam Resistência, que faz vídeos dos poetas se apresentando e postam no Facebook. Tem vários vídeos com milhões de visualizações. Isso ajuda a criar discussões, reflexões em torno de assuntos que dificilmente seriam pautados em programas de TV, por exemplo”, diz Afonso.

O projeto Slam Resistência surgiu para fortalecer movimentos sociais, protestos e mostrar que todos podem ter voz, incentivando a luta por seus direitos. A tomada de espaços públicos por parte desses movimentos culturais que se estendem desde o centro até as periferias de São Paulo e outras cidades representam um protagonismo artístico diferenciado e muito importante. Essa poesia de transformação e as rimas de quem não se conforma com o sistema preconceituoso e injusto, preenchem o vazio de viver dias sombrios em sociedades desiguais como a nossa. Os slammers, através de sua voz, revelam o que a mídia esconde e faz ver aqueles que ainda permanecem de olhos fechados.

Foto por: Giulia Villa Real / Público do Slam Resistência

Foto por Giulia Villa Real / Organizadores agitando o público

Foto por Giulia Villa Real / Um dos slammers se apresentando

Foto por Giulia Villa Real / Vista da Radial Leste

Foto por Giulia Villa Real / Slammer se apresentando

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