Museu a céu aberto

Por Clara Marques, Giulia Villa Real, Victória Bassi

O beco da rua Gonçalo Afonso, na vila Madalena, bairro famoso da Zona Oeste, é um lugar muito visitado por turistas e até mesmo por moradores de São Paulo que querem apreciar a arte de forma gratuita. Conhecido como Beco do Batman, ganhou esse nome por um grafite do super-herói desenhado nos anos 1980. O desenho do Batman servia como referência e ganhou fama por ser representado de diversos jeitos por outros artistas. Os melhores grafiteiros do Brasil e do mundo deixam um pouco da sua arte neste museu ao ar livre.

Grafiti no Beco do Batman / Fonte:Reprodução

Hoje, o Beco do Batman é um dos lugares mais democráticos para arte na cidade de São Paulo, uma galeria a céu aberto. Nas ruas Gonçalo Afonso e Medeiros de Albuquerque, dezenas de grafites enfeitam as paredes. O bairro da Vila Madalena, desde os anos 1980, deixou de ser apenas um bairro residencial. As ruas do bairro são conhecidas por aglomerados de bares que fazem as noites paulistanas e os carnavais mais animados da cidade.

Grafiti no Beco do Batman / Fonte:Reprodução

Os desenhos muito coloridos são cenários para filmes, sessões de fotos e muitas selfies de turistas. Por ser um bairro famoso e boêmio da cidade de São Paulo, apesar das reclamações dos moradores e da movimentação constante, a maioria entende que é normal esse tipo de situação. Para Severino Castro, 62, a rua que está localizado o Beco do Batman se tornou ponto de sexo, drogas e pancadão. Todos os finais de semana existe algum tipo de tumulto, o que causa constrangimento para os moradores. “Eu gosto muito do bairro e da questão turística, mas na minha opinião era importante um pouco mais de segurança e controle por parte do Governo.”

Como chegar ao Beco do Batman

Para chegar ao Beco do Batman, os turistas podem ir de carro e estacionar em um dos diversos estacionamentos que tem no bairro, por aproximadamente R$ 20 ou então de transporte público. As duas estações de metrô mais próxima são a Clínicas (Linha Verde) e Fradique Coutinho (Linha Amarela).

Como chegar no Beco do Batman / Fonte: Google Maps

São apenas 15 a 20 minutos de caminhada para chegar ao Beco do Batman.

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Falando a língua dos refugiados

Por: Ana Luiza Menechino, Ana Beatriz Pattoli e Paula Zarif

Quem entra no espaço onde funciona o Abraço Cultural, logo sente que ele responde bem ao nome do projeto: todo mundo é recebido com sorrisos e a porta fica sempre aberta. A escola, que une professores refugiados de diversos países e alunos curiosos, tem como objetivo ensinar não somente um novo idioma, mas também uma nova cultura. 

O Abraço Cultural começou em 2014, durante a 1ª Copa Mundial de Refugiados, organizada pela ONG Atados,que mostrou o potencial dos imigrantes para ensinar línguas e trocar experiências. Com o projeto, cada refugiado passou a ter a oportunidade de ser protagonista da própria renda e, assim, se inserir melhor no mercado e na sociedade.

As aulas de inglês, espanhol, francês e árabe começaram em 2015 e tiveram mais de 500 inscritos, apesar de o esperado ser menos de 50. Todos os refugiados interessados são capacitados para dar aula e contam com um material didático próprio, desenvolvido junto com os professores.

A proposta é que as aulas possam ser variadas, envolvendo culinária, danças típicas, debates sobre filmes ou qualquer outra parte de cultura, o que também ajuda a  quebrar barreiras e preconceitos que, muitas vezes, passam despercebidos. O professor de árabe, Ali Jeratli, 29, por exemplo, ensina o alfabeto para os alunos com músicas, mas já garante que pretende dar uma aula mostrando como é a verdadeira comida árabe.

Ali é da Síria e veio para o Brasil por conta da guerra, em 2014. A escolha do país coincidiu com a vontade de assistir um jogo da Copa e ele acabou conseguindo trabalhar como tradutor no estádio assim que chegou aqui. Na época, conheceu muitas pessoas e percebeu que a maioria tinha uma visão “muito errada” de seu país e gostou de poder mostrar como era a Síria que ele conhecia e decidiu ser professor.

Com o Abraço Cultural, Ali conseguiu dar aulas de inglês e árabe para várias turmas, mas contou que também aprendeu muito com seus alunos. A aula acaba ficando parecida com uma roda de amigos, trocando vivências.

Giulia Manccini, 24, escolheu fazer as aulas do novo idioma no Abraço Cultural para poder ter a experiência completa e comentou que “saber da vida do professor colabora para a experiência cultural”. Ela já fez aulas em outras escolas tradicionais, mas prefere esse formato, que, além de estimular o emprego, deixa os alunos muito mais a vontade para tirar dúvidas e conversar.

O Abraço tem hoje 84 turmas, em São Paulo e no Rio de Janeiro e a proposta é crescer ainda mais. No próximo semestre, serão abertas as turmas do Abracinho, com aulas voltadas para crianças de 8 a 12 anos. Para conhecer mais sobre o projeto e se inscrever em uma das turmas é só acessar o site http://abracocultural.com.br/.

Atelier Primavera de 83

Por: Giulia Bechara, Isabel Rabelo e Victória Gomes

 

O atelier Primavera de 83 é um projeto que foi criado pela economista e artista têxtil Andréa Orue, dedicado à prática de artes manuais, baseadas no conceito de do it yourself (ou faça você mesmo), que influencia bastante na vida das pessoas. Em seu projeto, é visado atividades de bordado livre, ponto cruz, crochê, tricô e costura livre.

O projeto de mulheres criativas, tem o intuito de compartilhar histórias reais de mulheres que se dedicam às artes visuais, fazendo com que nasça uma conexão entre elas, incentivando o autoconhecimento, inspirações, acolhimento e empoderamento.

A artista plástica leciona cursos e workshops presenciais de bordado e outras artes manuais os quais tem a intenção de transmitir uma ideologia feminista, tanto no atelier principal, localizado na Vila Pompéia, como em várias unidades do Sesc, na Grande São Paulo.

Andréia afirma que foi através das artes manuais que encontrou a si mesma, e com isso, sua verdadeira inspiração e vocação, numa jornada de auto-incentivo e amor próprio.

 

“Feira da Praça” traz cultura, artes e lazer

Por: Adriana Vieira, Barbara Bastos, Catharina Figueiredo, Giovana Costa, Ingrid Duarte e Maria Victória Gonzalez

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Desde 1987, a “Feira da Praça” acontece na Benedito Calixto e atrai muitas famílias, comerciantes, turistas e amantes da cidade de São Paulo. O evento é realizado todos os sábados, das 9 às 19 horas, no bairro de Pinheiros. O clima é de lazer e a diversão fica por conta da diversidade e do contato cultural.

Numa mistura de brechó e antiquário, a feira é famosa pela variedade. Há expositores com artesanato como copos feitos de garrafas de vidro, existem peças decorativas, quadros, sapatos, roupas, bijuterias e muito mais. Outro destaque da feira é o clima nostálgico. A maioria dos expositores vendem artefatos antigos, sejam peças de porcelana e prata, ou itens de colecionadores como brinquedos antigos, moedas de diversos países, discos raros tanto nacionais como internacionais, câmeras fotográficas de todos os tipos e épocas, máquinas de escrever, histórias em quadrinho raras e vitrolas de todos os tamanhos.

 

 

Maurício Tedesco, de 51 anos é artista plástico e expõe seus quadros na Benedito há 8 anos. Segundo ele, é gratificante ver as pessoas visitando a feira: “Exponho aqui desde 2009. Hoje, a feira é frequentada por diversos tipos de pessoas: desde turistas que vêm conhecer a tradição da feira, quanto pessoas quem vêm visitar os bares nos arredores, experimentar a comida. Há também os colecionadores e aqueles que vêm simplesmente para passear. O que é legal da feira é a descontração, as pessoas vêm realmente para relaxar e comprar, estão “desarmadas”, tranquilas, é muito empolgante!”.

Além dos expositores, a feira conta com uma praça de alimentação muito completa e que, costuma agradar todos os públicos. Há apresentações da “Canário e seu Regional”, um trio que embala a praça de alimentação com ritmos brasileiros tocados no chorinho. Entre as opções de comidinhas estão: petiscos, comida portuguesa, doces caseiros, pastel, comida baiana, hot dogs, bebidas feitas com frutas exóticas, bolos caseiros, entre outras. Mariana Manso, de 36 anos, secretária, frequenta a feira a 10 anos e se apaixonou pela praça de alimentação. “Gosto de tudo aqui, desde a praça de alimentação, até o artesanato, mas minha paixão mesmo é a comida, é muito saborosa. Conheci a feira através de uma amiga e sempre que posso estou aqui”, diz Mariana.

Na Benedito Calixto, há também bares e galerias nos arredores que acabam tornando-se uma extensão da feira. Muitas pessoas se reúnem com os amigos para aproveitar o entardecer, conversar e beber nos bares próximos. Muitas famílias visitam as lojas das galerias, que oferecem opções diferenciadas de roupas, acessórios, decorações e até itens para jardinagem. A musicalidade da feira também não se limita ao chorinho, há expositores tocando MPB, enquanto nas galerias também há espaço para outros ritmos como jazz e rock n’ roll, com música ao vivo.

 

 

Luiz Bispo, de 86 anos, cozinheiro e responsável pelo “Portal da Bahia”, barraca famosa pelo acarajé, trabalha há 30 anos na feira e fica muito feliz com a visitação da clientela. “Não tenho reservas em relação a este lugar, nem preconceitos, gosto de tudo aqui! Os clientes são pessoas maravilhosas. Se tem algum que não é bacana, deixo passar, pois entre um que não é legal, existem mil que valem a pena. O que mais me agrada aqui é a diversidade, as pessoas representam a Benedito Calixto”, garante Luiz.

É notável o carinho e a fidelidade do público, já que a feira está sempre cheia e conta com a presença de pessoas de todas as idades. Não há quem não se empolgue com as antiguidades, a comida e toda a valorização cultural que a feira agrega, trata-se de um passeio indispensável e que com certeza representa toda a diversidade cultural de São Paulo.

 

A populosa e moderna Lapa paulistana

Texto por Gabriela Fogaça e Sofia Missiato

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A Lapa, lugar populoso e movimentado,  é um distrito localizado na Zona Oeste de São Paulo. Dividida em regiões, ele abrange a Lapa de Baixo, o Bairro da Lapa e o Alto da Lapa. Além de diversas histórias que são vividas lá diariamente, o local também é ponto de cultura, lazer, conhecimento, gastronomia e transporte público.

O bairro vem, nos últimos anos, confirmando sua posição moderna e urbana, principalmente depois da implantação do Terminal da Lapa, com ônibus. Também atende pelas linhas 7-Rubi e 8-Diamante da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, respectivamente ramos da São Paulo Railway e Estrada de Ferro Sorocabana, na estação Lapa. Mercado Municipal da Lapa

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Com arquitetura triangular, 4.840m² de área construída e considerado um dos mais modernos na época, o Mercado Municipal da Lapa foi inaugurado em 1954, idealizado pelo vereador Iapeano Ermano Marchetti, projetado e construído pela Prefeitura do Município de São Paulo. Os primeiros clientes do Mercado foram imigrantes europeus, pois podiam encontrar produtos provenientes de suas terras, como vinhos, bacalhau, azeites, entre outros. O horário de funcionamento do Mercado Municipal da Lapa é de segunda-feira a sexta-feira das 8h às 19h e aos sábados das 8h às 18h. Shopping Center Lapa

O Shopping Center Lapa também realça o fato da região ter uma ótima infra-estrutura na cidade. Um dos mais antigos da cidade, o shopping foi inaugurado em 1968 sendo o segundo do município, e hoje abriga cerca de 100 lojas, além de cinema e uma  praça de alimentação. O Shopping Center Lapa funciona todos os dias, das 10h às 22h.

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O amor caminhando em uma tarde de verão

A Rua 12 de Outubro foi palco para o então jovem Luiz Barbosa [hoje com 88 anos] e a moça Maria José [hoje com 86 anos] se reencontrarem mais uma vez. O romance começou em uma noite de festa na Vila Ipojuca, com direito à sanfona, clarinete, pandeiro e violão. Seu Luiz conta que assim que entrou no baile, avistou sua futura esposa e tirou-a para dançar. Ele, um pé de valsa que já havia ganhado vários concursos de dança, mentiu quando ela disse que não sabia dançar. Depois de dançarem a noite inteira, cada um seguiu seu caminho.

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Quatro anos depois, seu Luiz avista Dona Maria caminhando com suas amigas na Rua 12 de Outubro. Desde então, não se separaram mais. Namoraram, casaram e construíram sua casa em um terreno comprado pela mãe de Dona Maria, na Vila Madalena:

– Dona Maria, porque a senhora se apaixonou por seu Luiz?

– Ah, porque ele sempre andava muito bonito e perfumado. Lembro que a música que tocava na noite em que nos conhecemos era Boneca Cobiçada.

– E você, seu Luiz… o que viu na Dona Maria?

– Eu encontrei minha outra metade, né?!

A Lapa foi o cenário da vida deles. Eles tiveram quatro filhos, oito netos e estão casados há mais de 60 anos.

Moradores de Ermelino Matarazzo podem perder local de cultura

Texto por Thalita Archangelo

Fotos por Débora Bandeira e Thalita Archangelo

Podcast por Beatriz Gimenez e Rachel Castilho

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O movimento cultural da zona leste enfrenta mais um obstáculo – dessa vez diretamente ligado ao seu funcionamento. No dia 30 de outubro, funcionários da Prefeitura Regional de Ermelino Matarazzo foram até o local entregar um ofício de interdição imediata alegando problemas estruturais do prédio.

A Ocupação Cultural de Ermelino Matarazzo, nomeada de Mateus Santos, possui um laudo emitido em setembro, onde são atestadas as boas condições do prédio. William da Silva Santos*, membro do Movimento Cultural de Ermelino Matarazzo desde sua inauguração, afirma haver perseguição política por parte da prefeitura. Ele lembra do episódio, ocorrido em maio, onde o Secretário Municipal de Cultura André Sturm ameaçou “quebrar a cara” de um dos membros do Movimento durante uma reunião sobre renovação de parceria para administração do local. “Depois do episódio, o secretário ficou chateado com a gente”, afirmou Santos.

Literatura Periférica no Movimento Cultural Ermelino Matarazzo.

Ainda sobre o ofício de interdição, o integrante do Movimento afirma que “não há indícios de rachaduras, de trincas, de descolamentos de placas (..)Tem um laudo da Prefeitura e um laudo nosso, independente. Eles se conflitam. Ambos indicam que há necessidade de reformas no prédio, mas as coisas deveriam ser feitas em parceria”.

O próximo passo para barrar a ordem da prefeitura para o fechamento do local já está sendo tomado. As pessoas podem de forma voluntária colocar e compartilhar vídeos dizendo ‘não’ à interdição através da hashtag #OcupaErmelinoResiste. “Não é um grupo de cinco ou seis pessoas como se imagina. São vários coletivos, com várias pessoas, com apoiadores do bairro. (…) A gente tem a população do nosso lado”. Depois de diversas tentativas, a reportagem não conseguiu contato com a Prefeitura Regional do bairro para comentar sobre o impasse.

Campanha feita pelo Movimento.

Não é de agora que a Ocupação Mateus Santos passa por uma série de burocracias com a Prefeitura Municipal e Regional. Depois de fazer parte da Rede Cultura ZL, os membros da Ocupação Cultural notaram que a luta deveria ser mais regional e rebatizaram de Movimento Cultural de Ermelino Matarazzo.

Através do grupo Balaio foram convidados a ocupar a praça central do bairro, entre 2014 e 2015 a fim de pressionar a Prefeitura Regional para que um espaço no fosse direcionado à cultura. A ocupação do prédio público fechado há 20 anos onde hoje funciona o Centro Cultural foi autorizada pelo antigo prefeito regional Alberto Santos. O local foi sede da Subprefeitura de Ermelino Matarazzo e está ocupado a pouco mais de um ano.

Santos lembra que durante a gestão do antigo prefeito, Fernando Haddad (PT), foi iniciado um projeto piloto de co-patrocínio. Nele, foram repassados para o Movimento cerca de 110 mil reais que serviram para a manutenção do espaço físico e dos projetos durante um período de seis meses. “A ideia da Prefeitura da gestão Haddad era através de um baixo custo gerar um espaço em parceria com os coletivos, o que é muito mais econômico”, declara Santos.

Arte realizada pelos integrantes.

Já na gestão de João Doria (PSDB), Santos afirma que o secretário municipal de cultura, André Sturm começou com um diálogo muito bom, mas “infelizmente ele [o secretário] deu a entender que não tem um tato para lidar com o ‘não’. A gente fez uma negativa e ao invés de tentar gerar um comum acordo, ele se exaltou e gerou o que gerou”. O membro do movimento lembra ainda do congelamento feito pela Prefeitura de 43,5% da verba destinada à pasta. “A gente sabe que essa verba não vai deixar de ser investida em espaços grandes, mas sim em espaços pequenos. Parece que há uma tentativa de enxugar o que já vinha de uma necessidade de ampliação”.

Apesar das diversas dificuldades que enfrentam com o poder público, Santos ressalta que existem políticos sensíveis à causa do Movimento Cultural. “Tem alguns políticos que entendem que a causa é justa, mas vou preservar os nomes para não dar a entender que somos ligados a eles. ” Ele declarou ainda que em nenhum momento houve pedido de apoio. “O político veio aqui e ofereceu: ‘sou sensível a sua causa’ (…) a gente foi muito claro: não vamos levantar bandeira para nenhum partido e nenhum político (…) a gente conversou que isso deveria ser preservado para não dar a entender que há uma parceria política e a gente ser rotulado como alguma coisa”.

De acordo com Santos, hoje o Centro Cultural conta com o trabalho de voluntários, a venda de camisetas e de artigos das exposições que abrigam e arrecadações em eventos fora do Centro Cultural. Além disso, eles aguardam a liberação da terceira parcela referente a um edital no qual foram contemplados.

Interior da ocupação.

Em outubro, André Sturm afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que “aquele rapaz muito gentil de Ermelino Matarazzo [se referindo ao desentendimento que teve com um dos membros do grupo] recebeu da secretaria R$ 400 mil em 12 meses. Foram R$ 400 mil numa casa de cultura com quatro pessoas”. Quanto a essa declaração, Santos desmente o secretário afirmando que “nós não recebemos R$ 400 mil. É colocado como se esse dinheiro fosse para aquelas pessoas [citadas na matéria do jornal]. Todo o dinheiro foi feito prestação de conta. Todo recurso que foi aplicado aqui foi prestado conta”.

No local são realizadas oficinas de fotografia, grafite, exposições, cine debate, sarau, além da biblioteca que fica disponível para qualquer pessoa que queira pegar um livro – basta deixar seu nome e um telefone para contato. De acordo com o membro do movimento, o fluxo de pessoas que passa pelo Centro Cultural é muito grande. Pensando nas mais diversas atividades e no trânsito de membros de outros projetos e coletivos, Santos estima que o número de pessoas circulando por mês na Ocupação chegue a mil.

A importância de um espaço cultural como esse na região se dá, para Santos, porque “Ermelino tem um potencial enorme cultural. São dezenas de grupos que estão procurando um lugar”. Ele também aponta para a troca de experiências e a interação como ponto importante a ser lembrado “Não só agir em rede como ter um espaço que seja compartilhado pela rede e aberto a todos tem uma importância incalculável”.

Gisele Miranda de Oliveira, estudante de letras, é frequentadora do Centro Cultural há quatro meses e ajuda com as fotografias dos eventos. Oliveira ressalta que “além de trazer a oportunidade a poetas e artistas da periferia, ter um espaço para divulgar o seu trabalho também enriquece no conhecimento e cultura do bairro”.

Gisele Miranda de Oliveira e William da Silva Santos no Movimento Cultural Ermelino Matarazzo.

 

Ermelino Matarazzo

Distrito situado na zona leste da capital paulista, Ermelino Matarazzo tem 8,70 Km² de área e 113.615 moradores (2010), de acordo com a Prefeitura Regional do bairro. Abriga desde 2005 o campus EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e é cortado pela linha 12-Safira da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Embora seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) seja de 0.801, considerado elevado, a principal carência da região é a de empregos. 97% da população (censo 2010) não trabalha no distrito, o que faz com que haja grande necessidade de locomoção por parte desses trabalhadores.

A produção cultural e artística no bairro é muito intensa. Grupos como Periferia Invisível, Cultura ZL e a própria Ocupação Mateus Santos atuam promovendo a articulação cultural na região há anos. Ermelino Matarazzo é hoje um centro de cultura com cada vez mais potencial de crescimento.

Ocupação Movimento Cultural Ermelino Matarazzo.

*A pedido do entrevistado, fica registrado que todas as declarações são opiniões de William da Silva Santos e não representam todo o grupo.

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Sesc Belenzinho: centro cultural na Zona Leste

Texto por Gabriela Fogaça e Sofia Missiato

O Sesc – Serviço Social do Comércio – é um projeto cultural e educativo que iniciou em 1946. Com o intuito de promover a transformação social, o Sesc traz diversos eventos e trabalha em campos relacionados à cultura, saúde, cursos, serviços sociais, entre outros, para todos os públicos. São 35 unidades espalhadas pela Capital e Grande São Paulo, além de contar com um projeto de expansão que planeja inaugurar novas unidades na Avenida Paulista e em Guarulhos.

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Foto: reprodução da internet.

Adentrando o Sesc Belenzinho

Museus, objeto arquitetônico, relações com seu sítio, abrangências cultural e simbólica, ora apresentando-se como pólo transformador de espaço, pessoas e vidas, ora como peças de marketing para instituições comerciais. Hoje perguntamos e discutimos a relevância das artes nos museus como inclusão social; neste sentido, a inclusão social pode ser entendida como a ação cultural e educacional que é proporcionada às populações que se mantém à margem dos benefícios do desenvolvimento social e econômico. É a ideia inicial no Sesc, a iniciativa não-formal de promover conhecimento por meio de diversos cursos que cada unidade proporciona. O Sesc Belenzinho foi reconhecido por melhorar o entorno na região, dando a possibilidade dos moradores a terem acesso às atividades por um preço justo, além da carteirinha da unidade que possibilita mais benefícios, como o acesso às quadras de jogos, o barateamento de oficinas, entre outros.

Dando ênfase na programação de outubro-novembro, conhecemos o Sesc Belenzinho e assistimos uma peça que está em cartaz até 26 de novembro, “A Invenção do Nordeste”. O espetáculo trata de um diretor contratado para selecionar um ator nordestino que possa interpretar uma personagem “nordestina” e que, depois de vários testes e entrevistas, são selecionados dois atores para a fase final. O diretor tem sete semanas para deixá-los prontos para um último teste. Durante esse período, eles refletem sobre sua identidade, cultura, história pessoal e descobrem que ser e viver uma personagem nordestina não é tarefa simples.

Com toda certeza, não é uma peça focada no marketing para instituições comerciais, pois tais assuntos são silenciados ou pouco interessantes para a indústria cultural de massa. Assim, o Sesc Belenzinho pode ser considerado inovador em suas temáticas teatrais, abrangendo moradores da Zona Leste e gerando um sentimento de identidade, seguindo o propósito da inclusão social.

Inaugurado em 2010, o Sesc Belenzinho possui subsolo, térreo inferior e superior. O local funciona de terça a sábado das 9h às 22h, e domingos e feriados das 9h às 20h.

 

Redução de danos no combate às drogas na Cracolândia é alternativa à tratamento convencional

Texto por Débora Bandeira e Thalita Archangelo; Vídeo por Beatriz Gimenez e Rachel Castilho

Em maio deste ano, a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado realizaram uma megaoperação na região da Cracolândia para combater o tráfico de drogas no local. Segundo a Secretaria de Segurança Pública a ação prendeu 53 pessoas. Além disso, um usuário ficou ferido. Depois desse episódio, o debate acerca dos métodos utilizados no combate às drogas e sua verdadeira eficácia ganhou força.

A redução de danos, por exemplo, é um dos principais métodos alternativos ao tradicional tratamento de internação. Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo até 2016, havia implementado um programa que contemplava a RD, mas acabou sendo substituído pelo programa do atual prefeito, João Doria (PSDB).

O Ministério da Justiça e Segurança Pública define Redução de Danos como “A promoção de estratégias e ações voltadas para a saúde pública e direitos humanos, devendo ser realizada de forma articulada inter e intra-setorial, visando a redução dos riscos, as consequências adversas e dos danos associados ao uso de álcool e outras drogas para a pessoa, a família e a sociedade”.

Apesar da orientação partir do Ministério da Justiça e não do Ministério da Saúde, a última ação da prefeitura não procurou atender às diretrizes da política de Redução de Danos governamental. Adepto da RD, Rafael Escobar, do Coletivo A Craco Resiste, defende que ela é essencial para a saúde pública. Para ele, alguns usuários vão continuar usando drogas – porque querem ou porque não conseguem parar – portanto, é preciso pensar em maneiras que minimizem o impacto disso tanto para o dependente como para a sociedade.

Assim, o fornecimento de seringas e cachimbos (o que evita o compartilhamento entre os usuários e a proliferação de doenças) e a oferta de empregos para que o usuário tenha fonte de renda, fazem parte dos ideais do coletivo.

Em 2000, o Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou a Redução de Danos ao falar da abstinência como apenas uma das opções para dependência química, incentivando a criação de tratamentos alternativos e singulares para cada usuário.

Além disso, o Centro de Atenção Psicossocial-Álcool e Drogas (CAPS AD) se tornou mais uma forma de apoio para tratamento da dependência química. Apesar de sua importância, a unidade que prestava atendimento na Cracolândia foi fechada há pelo menos uma semana. O Governo do Estado, segundo reportagem do Seu Jornal, da TVT, justificou o seu fechamento devido à queda no número de atendimentos.

Tentativas passadas

Em 2012, sob a gestão de Gilberto Kassab (atualmente no PSD), a administração municipal junto com a estadual executou o plano “Centro Legal”. A ação ficou conhecida como “estratégia de dor e sofrimento” porque, na época, o coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que “a falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e o sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda”.

Já na gestão Haddad (PT), em 2014, a prefeitura realizou o programa “De braços abertos” que tinha como objetivo a reinserção do dependente químico na sociedade através do oferecimento de empregos, profissionalização, apoio a tratamentos, refeições e moradia, assim, estimulando a diminuição do consumo de drogas. Segundo uma pesquisa realizada pela Plataforma Brasileira de Política de Droga, a iniciativa teve resultados positivos: 2 em cada 3 usuários de crack reduziram o uso das drogas após participar do programa.

Hoje, na atual gestão, o programa “Redenção” tem o tratamento como primeiro plano e causa divergência na comunidade psíquica, chegando a defender até a internação compulsória. Para a assistente social Carmén Lopes, que trabalha na região, isso é reflexo da falta de inclusão social e de políticas públicas efetivas e continuadas. “Nosso país não está preparado para nenhuma política pública”, afirmou recentemente em uma palestra na região da luz.

“A Cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais. Nem a Prefeitura permitirá, nem o governo do Estado. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa. A partir de hoje, isso é passado”, declarou o prefeito da cidade João Doria (PSDB), em maio.

 A Craco Resiste

Em ação desde dezembro de 2016 através da organização pela internet, A Craco Resiste é um coletivo que tem como objetivo evitar a violência policial na região da Cracolândia. O coletivo se define como “antiproibicionista, abolicionista penal e, antes de tudo, antimoralista” e tem como identidade visual dois punhos fechados segurando cachimbos – objetos utilizados no início do século no consumo do crack para que os usuários não queimassem a boca. A imagem representa a resistência em relação às práticas do Estado e à filosofia da redução de danos, que rege a ideologia do grupo.

Por ser antiproibicionista, A Craco Resiste acredita na descriminalização e regulamentação de qualquer tipo de substância, uma vez que, segundo o coletivo, a proibição não ajuda na busca de tratamento e criminaliza os usuários. Estes, por sua vez, ficam à margem da população sem nenhuma política pública que seja, de fato, efetiva.

O coletivo reúne cerca de 20 colaboradores que realizam vigílias na região central da cidade de São Paulo a fim de estar presente no local para denunciar possíveis atos de violência institucional e resistir a eles. Nessas vigílias, a arte e a cultura são o principal pilar contando com rodas de capoeira, oficinas musicais e exibição de filmes.

Craco resiste
Logo da “Craco Resiste”