Tendal da Lapa: um coração cultural em São Paulo

Por Emilly Dulce e Natália Novais

Há quase 30 anos o bairro da Lapa abriga um dos centros culturais mais emblemáticos da cidade de São Paulo. O Tendal da Lapa, como é conhecido, é um conjunto arquitetônico tombado desde 2007 e tem a missão de oferecer cultura gratuita a capital paulista, em especial a população lapense. A história do espaço cultural tem forte ligação com o desenvolvimento do bairro no qual está localizado, uma das primeiras regiões ocupadas de São Paulo.

O início das atividades datam de 1989, com uma “invasão cultural” no antigo prédio do mais importante entreposto de carnes da região, que na época era chamado de Fábrica dos Sonhos. O grupo cultural se chamava Teatro Pequeno e as atividades tiveram início em uma tenda, com forte predominância do circo e do teatro, presentes até hoje no local.

O Tendal da Lapa é formado por um espaço amplo, com uma área aproximada de 7.000 m². Em um dos galpões que o compõe, muitos grafites e formas geométricas se vinculam a trilha sonora da linha férrea, que segue seu curso ao fundo.

 

A estrutura do centro cultural permanece caracterizada pelo seu objetivo primário: a circulação, armazenamento e distribuição de carnes no início do século XX. Por isso, é possível observar traços das construções industriais, que devem ser mantidos graças ao tombamento do edifício pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

O espaço, de caráter singular, abriga as mais diversas linguagens artísticas, de palestras a oficinas, que buscam incentivar o aprendizado e valorizar trabalhos que não alcançaram visibilidade e apoio. As oficinas, ministradas por professores voluntários, englobam a música, o teatro, a dança, o esporte, as artes plásticas etc.

Ponto de encontro entre muitos jovens, o Tendal da Lapa recebe cerca de 1.200 pessoas por dia, abrigando também a Prefeitura Regional da Lapa e serviços públicos como Farmácia Popular, a Junta de Serviço Militar e o atendimento da Agência Lapa do IBGE.

 

O Vozes do Bairro conversou com Bel Toledo, gestora do Tendal da Lapa, que conta como é o dia a dia no espaço:

 

SERVIÇO:

Horário: De terça a sexta-feira, das 9h às 22h, sábados e domingos, das 9h às 18h

Telefone: (11) 3862-1837

E-mail: contato.tendal@gmail.com

Site: https://www.facebook.com/espacoculturaltendaldalapa/

Onde: Rua Guaicurus, 1100 – Rua Constança, 72 (estacionamento); CEP: 05033002

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Obra inspirada em Shakespeare, peça sertãohamlet estreia no SESC Pinheiros

Por: Alessandra Monterastelli, Georgia Barcarolo, Julia de Alencar, Letícia Sepúlveda, Luiza Vilela.

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Imagem promocional da peça sertãohamlet

Inspirado na obra shakespeariana Hamlet, sertãohamlet, peça do ator e diretor Guido Campos, estreia no Sesc Pinheiros. Guido é bastante conhecido por seu trabalho como ator, tendo atuado no aclamado Carandiru (2003) e mais recentemente no curta Sagrado Coração (2012).

A Companhia do Sertão Teatro Infinito finaliza, com a peça, uma trilogia realizada sobre a temática do sertão. Contando as primeiras montagens, de A Terceira Margem do Rio – baseado na obra de Graciliano Ramaos – e BOI, o projeto levou 23 anos para ser concluído e tem encerramento com sertãohamlet.  

A extensa pesquisa para o projeto foi realizada no Ceará, na região do Cariri. A proposta é trazer ícones do sertão, incluindo o mito do Lampião. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e o clássico Hamlet se cruzam por terem em comum o assassinato de seus pais e o desejo por vingança.

A cenografia é bastante baseada na região nordestina, assim como seus personagens simples e bastante verossímeis. A peça tem sua primeira passagem por São Paulo tendo como palco o Sesc Pinheiros, em curta temporada de 16/11 a 16/12.

O Sesc Pinheiros

Inaugurado em 2004, o Sesc Pinheiros recebe uma programação diversa e ao mesmo tempo bastante focada em teatro e dança, sendo muitos dos espetáculos estrangeiros.

Sendo um dos maiores da cidade, o Sesc movimenta a região de Pinheiros e tem importância para a comunidade, principalmente devido à programação infantil e à Comedoria, o restaurante do local, com capacidade para servir 3 mil refeições diariamente.

Para os associados do Sesc, as refeições completas e pensadas por nutricionistas saem a preços extremamente acessíveis, como não se encontra em mais nenhum lugar de São Paulo – principalmente em bairros da Zona Oeste.

Além da programação cultural e artística, a instituição oferece uma série de cursos e oficinas profissionalizantes e é um ponto de encontro bastante acessível. Mais que um ambiente fechado, as unidades do Sesc, com ênfase para a unidade Pinheiros por seu tamanho e programação vasta, tornam-se ambiente de convivência e vivência da cidade de São Paulo, contando com Wi-Fi livre e programas de saúde para a população.

Da região

Ao contrário das outras regiões de São Paulo, a Zona Oeste é difícil de ser categorizada de forma única. Cada bairro possui características bastante distintas e perfis muito diferenciados de moradores.

Em Pinheiros, um dos bairros mais antigos de São Paulo, o cenário boêmio e gastronômico chama atenção, mas o cenário cultural, protagonizado pelo Sesc Pinheiros, também é bastante expressivo.

O bairro abriga o instituto Tomie Ohtake, um dos principais museus de São Paulo. Inaugurado em 2001, o espaço destaca-se por suas exposições e mostras estrangeiras que valorizam os últimos 60 anos das artes plásticas – em homenagem à própria artista que dá nome ao instituto  –  e por sua arquitetura única.

A programação aberta ganhou nos últimos anos bastante espaço no bairro, que agora recebe a “praia do largo da batata”, nome dado ao Largo da Batata aos fins de semana, quando o local recebe shows e espetáculos gratuitos, além de disponibilizar cadeiras de praia para o descanso de quem passeia pela região.

Atelier Primavera de 83

Por: Giulia Bechara, Isabel Rabelo e Victória Gomes

 

O atelier Primavera de 83 é um projeto que foi criado pela economista e artista têxtil Andréa Orue, dedicado à prática de artes manuais, baseadas no conceito de do it yourself (ou faça você mesmo), que influencia bastante na vida das pessoas. Em seu projeto, é visado atividades de bordado livre, ponto cruz, crochê, tricô e costura livre.

O projeto de mulheres criativas, tem o intuito de compartilhar histórias reais de mulheres que se dedicam às artes visuais, fazendo com que nasça uma conexão entre elas, incentivando o autoconhecimento, inspirações, acolhimento e empoderamento.

A artista plástica leciona cursos e workshops presenciais de bordado e outras artes manuais os quais tem a intenção de transmitir uma ideologia feminista, tanto no atelier principal, localizado na Vila Pompéia, como em várias unidades do Sesc, na Grande São Paulo.

Andréia afirma que foi através das artes manuais que encontrou a si mesma, e com isso, sua verdadeira inspiração e vocação, numa jornada de auto-incentivo e amor próprio.

 

Galeria Choque Cultural

Por Laura Doubek

Fundada em 2004, a Galeria Choque Cultural é um espaço de mostras de arte moderna e contemporânea localizada na Vila Madalena, em São Paulo. Foi fundada pelos arquitetos Mariana Martins e Baixo Ribeiro e o historiador Eduardo Saretta com o objetivo de inserir os jovens e novos nomes no meio artístico. Focado nessa integração, há uma rotação entre as pessoas selecionadas pela curadoria, além de um acervo permanente. Tudo que é exposto no local pode ser comprado na loja, onde também existem pequenos itens à venda sobre a galeria. Hoje, ela é referência global em novas linguagens artísticas e conta com projetos de intercâmbio, imersões, intervenções urbanas, colaborações e exposições externas por toda a cidade.

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BUM, BUM, BUM, CASTELO RÁ – TIM – BUM!

Escrito por Carolina Gomes e Júlia Castello

Vídeo por Letícia Nascimento e Catharina Figueiredo

Fotos por Nádya Duarte

Produzida e exibida pela TV Cultura nos anos de 1994 até 1997, a série infanto-juvenil mais famosa da televisão brasileira ganhou uma exposição no Memorial da América Latina que vai até o dia 4 de fevereiro de 2018. A exibição, chamada “Rá – Tim – Bum, o Castelo”, já contou com mais de 570 mil visitantes desde sua estreia, em março deste ano.

O programa foi criado pelo dramaturgo Flavio de Souza, com direção assinada por Cao Hamburguer, roteiro de Jacob Dionisio, Cláudia Dalla Verde e Anna Muylaert. Esta franquia se caracteriza por ser um produto audiovisual educativo e, por isso, teve parceria entre a Fiesp e a TV Cultura representando um grande marco para os telespectadores entre três a oito anos, chegando a alcançar 12 pontos de audiência entre os jovens e 14 em reprises de episódios, tornando-se um filme em 1999.

Contando com 90 episódios e mais um especial, a série retratava a história de Nino, um garoto de 300 anos que vivia em um castelo com seu tio, o Doutor Victor, e com sua tia-avó Morgana, uma feiticeira. O menino, por se sentir muito sozinho, realiza um feitiço e consegue receber três estudantes (Zequinha, Biba e Pedro) diariamente em sua residência nada comum.

Seus pais estão no espaço-sideral com seus irmãos mais novos e para preencher seu tempo, convive com os jovens que acabaram de sair da escola, o maligno Dr. Abobrinha que quer destruir o castelo para construir um prédio no lugar, o Etevaldo, um E.T, o entregador de pizza (Bongô) e Penélope, uma charmosa repórter.

A história ganhou diversas premiações, como APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e o Sharp de Música. Além disso, a produção televisa chegou a ser transmitida, também, em inúmeros países da América Latina, alcançando Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Uruguai, Venezuela e muitos outros países.

E por isso que a exposição do Castelo Rá – Tim- Bum no Memorial se torna nostálgica e imperdível para os fãs. Comemorando os mais de 20 anos da série, o público vai encontrar no local vários itens e ambientes em tamanho real do acervo da TV Cultura e Fundação Padre Anchieta. É possível passear dentro da cozinha do famoso Castelo, onde Nino personagem principal da série fazia suas receitas malucas. Além disso, é possível conhecer uma das personagens mais amadas da série, a cobra Celeste e sua árvore que ficava no centro do salão de entrada do Castelo.

Caroline Fagundes, 25 anos, visitou a exposição e confessa que assistiu a série até os 20 anos. Diz que se a série voltasse para a programação da TV Cultura, não teria tanto interesse em assistir por considerar o conteúdo mais infantil, mas que com certeza incentivaria seus filhos a assistir, pelo programa ser muito educativo e por estimular a imaginação. Seus personagens favoritos eram o Bongô, (interpretado por Eduardo Silva da série que era considerado o melhor entregador de pizza do Brasil) e a bruxa Morgana, interpretado pela jornalista Rosi Campos.

Já para a estudante, Laura Zemella, que assistiu a série até seus 7 anos, quando a série acabou, diz que a ida a exposição foi um retorno para a infância: “Fui conferir a exposição porque era fã, mas também não lembrava muita coisa do programa. Ver a exposição refrescou minha memória e me transportou pra momentos que estavam escondidos em minha cabeça”.

Seu personagem favorito, o ratinho, era para ela o momento mais divertido da série, pois era possível aprender por meio de músicas: “Todo o enredo do Castelo Rá – Tim – Bum é muito bom. Todos os seus personagens são encantadores, e todas as histórias eram muito bem feitas e possuíam um tom educativo, que nenhum outro desenho da TV brasileira possui”.

Para saber mais da série televisiva, assista aos bastidores da exposição “Rá – Tim – Bum, o Castelo”.

 

Lapa em quadro

Por Edilson Henrique Muniz e Gianluca Florenzano

A diversidade paulistana é reconhecida de longe em muitas áreas; gastronomia, esporte, lazer e outros tantos segmentos que fazem de São Paulo uma cidade cheia de particularidades. E como era de se esperar, a arte não fica de fora. São museus, exposições, concertos e milhares de manifestações ao ar livre espalhadas por toda a capital. Um dos exemplos dessa arte é o grupo CasadaLapa.

“A CasadaLapa é uma rede social real”. É assim que Pedro Noizyman, designer de som, DJ e um dos líderes do movimento define a Casa. Ela é formada por vários artistas de áreas diferentes em uma residência localizada no bairro Lapa. “Aqui você pode mostrar seu trabalho para o colega da sala ao lado sem se preocupar com o fato de que ele, muito provavelmente, poderia estar querendo ocupar o seu posto, como ocorre na maioria dos casos nas empresas convencionais”, diz Fernando Sato, designer e um dos pioneiros na iniciativa.

A CasadaLapa é um espaço físico onde todos podem trabalhar livremente, sem a sensação de estar em um escritório em si. Um lugar de criação, teste e divulgação do trabalho de cada um de seus membros. A noção de competitividade, algo comum no ambiente mercadológico, é trocada pela colaboração, muito prezada pelos participantes.

O diferencial desse coletivo se dá pelo fato de que seus membros não fazem questão de se contrapor ou enfrentar diretamente a nenhum órgão, tanto físico como institucional. “É importante entender que não queremos nos contrapor a nada e nem ninguém. Simplesmente funcionamos de forma diferente do sistema, mas sem qualquer ideologia por trás disso”, diz Fernando Coster, cineasta e um dos residentes da Casa.

Um dos projetos mais recentes do coletivo é o Enquadro. Ele é um projeto colaborativo dos integrantes que envolve grafite, música, vídeo, foto entre outros tipos de manifestações artísticas. Eles são expostos em espaços públicos da cidade de São Paulo, o que corrobora com a noção colaborativa do movimento.

Ver São Paulo com outros olhos. É o que promete essa iniciativa. De acordo com os idealizadores, o intuito é reocupar as ruas. Para eles, devido à falta de tempo, e principalmente o medo da violência urbana, fizeram com que os indivíduos não utilizassem mais os espaços públicos. Assim como discursa no documentário Rumos, Cinema e Vídeo, o designer do coletivo Fernando Sato, “cada vez mais percebemos que as pessoas estão saindo das ruas, e temos que ocupar esse espaço, pois é nosso”.

O Enquadro consiste em narrar por meio de diversas mídias, as histórias dos bairros paulistanos, dando enfoque para os atributos próprios de cada vizinhança. Para os artistas por trás dessa ação, se as pessoas conhecem mais sobre o espaço público e sobre os indivíduos em volta, não temem mais ocupar e regressam para as vias urbanas. É uma retomada da cidadania e do sentimento de coletividade, segundo o grupo.

As intervenções realizadas nos lugares públicos é a essência desse empreendimento artístico. Conforme realça o designer, “uma das coisas primordiais do Enquadro é se utilizar da rua”. E complementa, “a gente acha muito importante trabalhar na rua, porque lá é o lugar mais democrático que tem”.

A parte de criação do projeto não segue nenhuma norma particular, todo o processo é coletivo, tanto que os próprios criadores o descrevem como algo desordenado. Assim como conta Sato no documentário, “não tem uma forma fechada, como os grafiteiros vão fazer isso, os fotógrafos vão fazer aquilo, o pessoal de vídeo vai filmar isso, é aberto mesmo, por isso é caótico”. O grupo CasadaLapa prega a concepção de não ter nenhuma hierarquia dentro do grupo, não há cargos de superiores, todos estão no mesmo patamar. “Não tem cargos específicos, a gente sempre assina como CasadaLapa e aliados”, diz o designer. A ação, por enquanto, já abordou os bairros do Brás, Lapa e Itaim Paulista. Mas, o coletivo promete não parar por aí. Eles garantem que vão tocar o projeto a todo vapor.

Uma simples iniciativa pode transformar a visão de mundo de muitas pessoas e a CasadaLapa vem com o objetivo de trazer uma noção mais colaborativa da sociedade. Há espaço para todos no mundo, acha-lo é questão de tempo.


 

Colaboradores da matéria: Augusto Oliveira, Edilson Henrique Muniz, Gianluca Florenzano e Victoria Bonachelli

Casa do Povo

Por Giulia Degan, Isabel Rabelo, Laura Doubek e Victória Gomes

A ideia de criar a Casa do Povo surgiu após uma reunião nos anos 30, na França, quando o nazismo já disseminava sua ideologia na Europa. Essa reunião abrangeu membros da comunidade judaica, pensando em meios de como não submeter-se a essa ascensão. Assim, foi criada uma proposta de construir uma Casa do Povo em todos os lugares para onde os judeus migrassem, como o intuito inicial de preservação de sua cultura e memória, e ao mesmo tempo uma forma de envolvimento ativo com o contexto em que eles estavam inseridos. O monumento teria de ter uma escola, biblioteca, um teatro e um espaço de convivência.

A Casa do Povo localizada no Bom Retiro já tinha muitas visitações feitas pelos moradores do bairro, que possuíam valores morais esquerdistas, sendo estes ativos no campo da política e tendo também, um envolvimento com os partidos comunistas. Dessa forma, a casa se torna um espaço em memória e resistência, e por conta disso, o prédio passa a ser considerado um Monumento Vivo em homenagem a dizimação da comunidade judaica na Europa, e também, um espaço de convivência, onde atividades são realizadas, movimentos acontecem e um local de encontros e envolvimentos políticos.

O terreno para a construção do prédio foi adquirido em 1946, e em 1953 a casa foi inaugurada. Ela foi sendo construída em função de um financiamento coletivo por pessoas que se identificavam com o objetivo primário do edifício. Pessoas que estiveram presentes na sua formação histórica, participavam das atividades propostas, dos encontros entre coletivos e queriam aderir investimentos àquela composição histórica, doavam quantias de dinheiro para que o edifício fosse erguido.

Logo após o fundamento do prédio, existia uma escola no terceiro andar que foi se expandindo até o primeiro. Nasceu também a sede do jornal Nossa Voz que já existia um pouco antes do surgimento da casa, e depois de 1953 sua sede foi movida para o prédio da Casa do Povo onde ficou ativo até 1964. Após esse ano, ficou interditado diante da censura do contexto ditatorial, e apenas em 2014 que o jornal voltou a ser editado. As publicações tinham o intuito de viabilizar a comunicação com os moradores do Bom Retiro e com o contexto político – publicações feitas em português e em iídiche. Em 2014, formou-se uma nova equipe de edição, com a proposta de ter pelo menos uma entrevista com alguma figura que teve envolvimento neste contexto e na constituição da casa.

Nos anos 60 foi inaugurado o Teatro Taib que fica no subsolo do edifício, o qual passaram por lá figuras artísticas importantes na época do movimento de resistência a ditadura, como Maria Bethânia e Chico Buarque. Foi também palco da peça “Ponto de Partida”, de Gianfrancesco Guarnieri. Hoje, o Teatro está inativo no aguardo de investimentos para ser restaurado e ser lar de novas experiências majestosas.

Fora as atividades da escola, editora e teatro, a casa também era espaço de reuniões de grupos de estudos, assembleias de grupos políticos, assim como um espaço de convívio entre pessoas – na planta original da construção do prédio, não existia o projeto de um portão, garantindo, assim, portas abertas para qualquer um que se interessasse em entrar, e não só a comunidade judaica. A escritora brasileira Lígia Fagundes Telles, por exemplo, fez parte de um grupo de estudos que frequentava constantemente a casa.

Com o passar das décadas, período próximo aos anos 80, a comunidade judaica foi ascendendo socialmente e migrando para bairros mais nobres. A opção de sair do Bom Retiro por uma grande quantidade de judeus, os visitantes originais do monumento, fez com que as atividades, antes permanentes na casa, fossem decaindo progressivamente. A escola faliu, o teatro foi desativado em algum momento nos anos 90 e as visitações e investimentos de grupos judaicos diminuíram muito. A casa nunca chegou a fechar, mas foi sendo cada vez mais difícil mantê-la, diante da pouca procura pelo seu público de origem e pela visão sem harmonia que as pessoas passaram a ter do bairro. Juntamente com essa migração de judeus para bairros mais nobres, houve um crescimento muito grande da comunidade coreana dentro do Bom Retiro, a qual passou a frequentar mais o monumento e até fazendo uso de seus espaços para prestigiar a sua própria cultura e costumes.

Assim, proposta atual vem sendo atualizada com projetos que reconquistem cada vez mais os membros da comunidade judaica, que tanto influenciam na construção ideológica da casa, como fazem parte de sua história. Além disso, é importante ressaltar que os projetos fazem a tentativa de atrair diversos tipos de público, uma vez que a casa faz uma homenagem constante aos judeus que estiveram presentes no cenário brutal da 2ª Guerra Mundial, por meio de atividades culturais, pelo preenchimento de um espaço vazio com ideias que intensifiquem o objetivo e a proposta inicial do edifício: enaltecer ideias de resistência e emancipação, sejam elas quais forem.

No primeiro andar existem duas salas e três coletivos. A primeira sala está ligada á criação de processos estéticos e figurinos. O Ateliê Vivo é um desdobramento dos projetos de modelarem e figurinos, sendo considerado uma biblioteca de figurinos. Os materiais usados nos projetos de figurinos são doados por fábricas de tecidos que existem no Bom Retiro, e todo sábado as pessoas podem trazer seus tecidos e criar suas próprias ideias em base dos moldes que já existem no espaço. A proposta deste projeto é criar um senso de autonomia e diminuir o senso especulativo do campo da moda, e essa proposta é racionada com o cunho comercial do bairro, que tem um grande reconhecimento quanto o assunto é tecidos, fábrica de roupas e exploração do trabalho. Já a segunda sala esta ligada ao Ocupe a Cidade e Edições Aurora que fazem projetos de publicações independentes.

O segundo andar é o andar mais amplo, onde acontecem projetos de dança e coreografias. É um espaço de ensaios e a apresentações, e também ocorre diversos convites para que artistas independentes realizem suas apresentações, além de eventos externos de variados tipos ao longo do ano.

A casa é um centro cultural, mas está também muito ligada ao processo de criação e convivência, do que não estar apenas fazendo exposições fixas. A ideia é sempre manter qualquer uma das atividades oferecidas e ocasionadas pela casa gratuitas, mas pode ocorrer a sugestão de algum artista externo da cobrança de um pequeno valor na entrada para visitação de seu projeto.

Existem atividades semanais voltadas para a terceira idade, que já estão presentes há algum tempo na programação fixa. – Coral iídiche, dança de salão e teatro. Aos sábado ocorre um encontro de um grupo de psicanalistas, que começou esse ano, os quais atendem diversos tipos de pessoas gratuitamente nos espaços abertos da Casa – corredores, escadas e jardins. Lá, há o costume de receber projetos que estão em fase de experimentação e testes de novas formas de enaltecer e realizar suas ideias, como é o caso do grupo de psicanalistas, testando o atendimento fora da clínica e no espaço público.

A Casa do Povo possui um espaço muito acolhedor, tanto no sentido físico como no energético. Suas paredes carregam anos de histórias que já passaram por diversos contextos sociais. Nesta visita não pudemos ver como de fato é um dia de programações e atividades, ou seus visitantes, mas com as pessoas que lá estavam foi impossível não sentir o desejo de ser um apoio para aqueles que procuram uma forma diferente de combater as hegemonias e corrupções que estão presentes nos dias atuais. Vale a visita, mas principalmente, vale muito a permanência, pois estar lá presente é estar moldando um ato de resistência.

 

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Feira Boliviana do Canindé

Texto por Maria Victória Gonzalez e fotos por Ingrid Duarte e Giovana Costa.

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Nas barracas há uma grande diversidade de produtos.

Estima-se que aproximadamente 200 mil bolivianos vivem na cidade de São Paulo atualmente. Grande parte deles estão na região do Pari, centro de SP, na Praça da Kantuta. A feira, que ocorre toda semana, aos domingos das 11h às 19h, faz esquina com a Rua das Olarias e Rua Araguaia. A diversão dominical da comunidade boliviana da cidade conta com diversas barracas de comidas típicas como santeñas, temperos, chás, produtos industrializados da Bolívia, malhas, bordados, vasos etc. Também oferece atração musical e de dança, com uma gama de instrumentos musicais de sopro e as festas folclóricas, que são organizadas em datas comemorativas do país. Além disso, o visitante pode conhecer o serviço de peluqueria (cabeleireiro em português), que possui fila todos os fins de semana para atender os clientes que desejam cortar o cabelo.

Infelizmente os produtos da feira ainda são trazidos pelos estrangeiros de forma irregular e por ônibus, isso porque não possuem autorização para entrarem com as mercadorias no Brasil. A feira Boliviana é discreta e pequena, mas é muito bem organizada. Seus visitantes têm a sensação de estarem em outro país com tamanha diversidade de produtos e cultura que existem no local.

O nome da praça Kantuta, é referência à uma flor que possui o mesmo nome, originária da região antiplano da Bolívia. Com caule amarelo, pétalas vermelhas e folhagem verde, a flor lembra a bandeira boliviana.

Além de ser uma atração turística e cultural, o evento é uma grande oportunidade para os imigrantes da Bolívia, que sofrem muito com a xenofobia existente em nosso país, tanto em relação ao emprego como também aos seus costumes. Além dessa, a feira típica tem outro ponto na zona leste de São Paulo, na Rua Coimbra, entre as ruas Bresser e Dr. Costa Valente, próximo ao metrô Bresser-Mooca (linha vermelha). Funciona aos sábados e domingos das 15h às 21h.