Tendal da Lapa: um coração cultural em São Paulo

Por Emilly Dulce e Natália Novais

Há quase 30 anos o bairro da Lapa abriga um dos centros culturais mais emblemáticos da cidade de São Paulo. O Tendal da Lapa, como é conhecido, é um conjunto arquitetônico tombado desde 2007 e tem a missão de oferecer cultura gratuita a capital paulista, em especial a população lapense. A história do espaço cultural tem forte ligação com o desenvolvimento do bairro no qual está localizado, uma das primeiras regiões ocupadas de São Paulo.

O início das atividades datam de 1989, com uma “invasão cultural” no antigo prédio do mais importante entreposto de carnes da região, que na época era chamado de Fábrica dos Sonhos. O grupo cultural se chamava Teatro Pequeno e as atividades tiveram início em uma tenda, com forte predominância do circo e do teatro, presentes até hoje no local.

O Tendal da Lapa é formado por um espaço amplo, com uma área aproximada de 7.000 m². Em um dos galpões que o compõe, muitos grafites e formas geométricas se vinculam a trilha sonora da linha férrea, que segue seu curso ao fundo.

 

A estrutura do centro cultural permanece caracterizada pelo seu objetivo primário: a circulação, armazenamento e distribuição de carnes no início do século XX. Por isso, é possível observar traços das construções industriais, que devem ser mantidos graças ao tombamento do edifício pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

O espaço, de caráter singular, abriga as mais diversas linguagens artísticas, de palestras a oficinas, que buscam incentivar o aprendizado e valorizar trabalhos que não alcançaram visibilidade e apoio. As oficinas, ministradas por professores voluntários, englobam a música, o teatro, a dança, o esporte, as artes plásticas etc.

Ponto de encontro entre muitos jovens, o Tendal da Lapa recebe cerca de 1.200 pessoas por dia, abrigando também a Prefeitura Regional da Lapa e serviços públicos como Farmácia Popular, a Junta de Serviço Militar e o atendimento da Agência Lapa do IBGE.

 

O Vozes do Bairro conversou com Bel Toledo, gestora do Tendal da Lapa, que conta como é o dia a dia no espaço:

 

SERVIÇO:

Horário: De terça a sexta-feira, das 9h às 22h, sábados e domingos, das 9h às 18h

Telefone: (11) 3862-1837

E-mail: contato.tendal@gmail.com

Site: https://www.facebook.com/espacoculturaltendaldalapa/

Onde: Rua Guaicurus, 1100 – Rua Constança, 72 (estacionamento); CEP: 05033002

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Obra inspirada em Shakespeare, peça sertãohamlet estreia no SESC Pinheiros

Por: Alessandra Monterastelli, Georgia Barcarolo, Julia de Alencar, Letícia Sepúlveda, Luiza Vilela.

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Imagem promocional da peça sertãohamlet

Inspirado na obra shakespeariana Hamlet, sertãohamlet, peça do ator e diretor Guido Campos, estreia no Sesc Pinheiros. Guido é bastante conhecido por seu trabalho como ator, tendo atuado no aclamado Carandiru (2003) e mais recentemente no curta Sagrado Coração (2012).

A Companhia do Sertão Teatro Infinito finaliza, com a peça, uma trilogia realizada sobre a temática do sertão. Contando as primeiras montagens, de A Terceira Margem do Rio – baseado na obra de Graciliano Ramaos – e BOI, o projeto levou 23 anos para ser concluído e tem encerramento com sertãohamlet.  

A extensa pesquisa para o projeto foi realizada no Ceará, na região do Cariri. A proposta é trazer ícones do sertão, incluindo o mito do Lampião. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e o clássico Hamlet se cruzam por terem em comum o assassinato de seus pais e o desejo por vingança.

A cenografia é bastante baseada na região nordestina, assim como seus personagens simples e bastante verossímeis. A peça tem sua primeira passagem por São Paulo tendo como palco o Sesc Pinheiros, em curta temporada de 16/11 a 16/12.

O Sesc Pinheiros

Inaugurado em 2004, o Sesc Pinheiros recebe uma programação diversa e ao mesmo tempo bastante focada em teatro e dança, sendo muitos dos espetáculos estrangeiros.

Sendo um dos maiores da cidade, o Sesc movimenta a região de Pinheiros e tem importância para a comunidade, principalmente devido à programação infantil e à Comedoria, o restaurante do local, com capacidade para servir 3 mil refeições diariamente.

Para os associados do Sesc, as refeições completas e pensadas por nutricionistas saem a preços extremamente acessíveis, como não se encontra em mais nenhum lugar de São Paulo – principalmente em bairros da Zona Oeste.

Além da programação cultural e artística, a instituição oferece uma série de cursos e oficinas profissionalizantes e é um ponto de encontro bastante acessível. Mais que um ambiente fechado, as unidades do Sesc, com ênfase para a unidade Pinheiros por seu tamanho e programação vasta, tornam-se ambiente de convivência e vivência da cidade de São Paulo, contando com Wi-Fi livre e programas de saúde para a população.

Da região

Ao contrário das outras regiões de São Paulo, a Zona Oeste é difícil de ser categorizada de forma única. Cada bairro possui características bastante distintas e perfis muito diferenciados de moradores.

Em Pinheiros, um dos bairros mais antigos de São Paulo, o cenário boêmio e gastronômico chama atenção, mas o cenário cultural, protagonizado pelo Sesc Pinheiros, também é bastante expressivo.

O bairro abriga o instituto Tomie Ohtake, um dos principais museus de São Paulo. Inaugurado em 2001, o espaço destaca-se por suas exposições e mostras estrangeiras que valorizam os últimos 60 anos das artes plásticas – em homenagem à própria artista que dá nome ao instituto  –  e por sua arquitetura única.

A programação aberta ganhou nos últimos anos bastante espaço no bairro, que agora recebe a “praia do largo da batata”, nome dado ao Largo da Batata aos fins de semana, quando o local recebe shows e espetáculos gratuitos, além de disponibilizar cadeiras de praia para o descanso de quem passeia pela região.

Teatro de Contêiner

Inaugurado em março deste ano, no que outrora fora um terreno vazio na região da Luz, o Teatro de Contêiner, iniciativa da Companhia de Teatro Mungunzá, um projeto cultural criativo, solidário e de extremo potencial social. O espaço preserva grande área livre e abriga onze contêineres que funcionam como sede e acolhem o funcionamento das mais diversas manifestações. O projeto, que tem um termo de cooperação com a subprefeitura da Sé, acabou de ser indicado ao Prêmio Shell na categoria inovação pelo uso arquitetônico inédito voltado para o teatro, inserido em região degradada do centro de São Paulo. Para mais informações: http://www.ciamungunza.com.br/conteiners

Por Catharina Figueiredo e Letícia Passos

 

 

Centro de São Paulo tem 60 imóveis ocupados e evidenciam crise de moradia na cidade

Texto por Débora Bandeira, fotos por Rachel Castilho e vídeo por Thalita Archangelo

 

Cruzamento Av. Ipiranga e Av. São João

A questão da moradia está cada vez mais evidente na cidade de São Paulo. Segundo dados de 2017 fornecidos pela Prefeitura, há um déficit de 370 mil moradias na maior capital do país. Entretanto, esse não é um problema recente.

Há exatos dois anos, a urbanista e ex-relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Moradia Adequada, Raquel Rolnik disse que São Paulo vivia uma situação de emergência habitacional. Na época da declaração, setembro de 2015, São Paulo tinha um déficit de 230 mil moradias. Ou seja, de lá pra cá, houve um aumento do déficit de 140 mil moradias, colocando a cidade em situação ainda mais urgente.

Escadaria do edifício Jafet, localizado na Av. Ipiranga

Também segundo a prefeitura, até julho deste ano, havia 60 imóveis ocupados somente no Centro da cidade. As ocupações ocorrem em prédios que se encontram abandonados. “As ocupações aparecem como uma alternativa. Evidentemente, a existência de edifícios vazios, subutilizados e terrenos vazios completam esse quadro”, destaca Raquel Rolnik, em entrevista à Agência Brasil.

Um desses imóveis é o antigo Edifício Basílio Jafet, que tinha caráter comercial. Localizado no número 879 da Avenida Ipiranga, se encontra a poucos metros do cruzamento mais famoso da cidade, eternizado na música “Sampa”, de Caetano Veloso – o da Av. Ipiranga com a Av. São João.

Esse edifício está ocupado desde 28 outubro de 2012 pelo movimento Frente de Luta por Moradia (FLM), que, inicialmente, ficou vinculado ao Movimento do Sem tetos do Centro (MSTC), entretanto, desde 2013, caminha sozinho.

Fachada do edifício Jafet

Em entrevista para o Vozes do Bairro, o coordenador do FLM e cientista social Leonardo Abreu de Moura, 34 anos, informou que, antes da ocupação ser realizada, foi feito um levantamento quanto às condições estruturais do prédio para que não oferecesse perigo aos moradores.

Ele também explicou como funciona a organização: além dele como coordenador geral, há também um mediador por andar, para resolver problemas de vizinhança e, de início, há uma movimentação para juntar alimento e racionar o que for necessário. “Há busca pela unidade, unidade de luta”, afirma Leonardo. Depois de estabelecidos no prédio, cada um segue a vida de forma mais individualizada, mas ainda sim com uma organização estruturada no que diz respeito ao que pertence aos serviços comuns.

Leonardo Abreu de Moura, coordenador da ocupação

Para manter algumas funções no edifício, como os porteiros, por exemplo, os moradores fazem uma contribuição mensal de 200 reais por mês. “A gente tem que ser gestor da nossa luta”, disse o coordenador sobre a organização do movimento e da ocupação.

Serviços como energia elétrica e o fornecimento de água funcionam normalmente, apesar de o coordenador afirmar que não há vínculo com a AES Eletropaulo, nem com a Sabesp.

Atualmente, 106 famílias estão cadastradas no local e desde 2012, eles já passaram por nove reintegrações de posse, mas nenhuma violenta. Para Leonardo, a especulação imobiliária é o que inviabiliza a regularização de moradias no centro. “Há barreiras que dificultam o acesso à moradia. E, enquanto classe proletária, devemos discutir o capital especulativo”, afirmou.

“Foi a única opção [vir para cá]”, disse o morador da ocupação Raimundo Lima da Silva, de 49 anos. O nordestino está na fila por habitação por 5 anos, o mesmo tempo que se encontra na ocupação. “Se chegar uma reintegração de posse aqui, eu sei que isso aqui não é nosso, estamos aqui passando um tempo, mas se chegar definitivamente, a gente vai ter que sair. A gente vai tentar lutar, mas o judiciário é maior, não vamos vencer ele. E vamos tocando a vida até o dia que os homens quiserem”, disse Raimundo.

Escadaria do edifício Jafet

PPP de Habitação

Devido a esse cenário, para tentar resolver a questão habitacional da cidade, o governo municipal e estadual lançou a Parceria Público-Privada da Habitação, conhecida como PPP de habitação. O programa irá construir diversos apartamentos para famílias de baixa renda, principalmente na região do centro, objetivando reocupar a região e repensar a mobilidade na cidade, uma vez que a maioria trabalha no entorno.

O Complexo Júlio Prestes é o que mais chama a atenção, localizado na região da Luz. “Além dos 1.202 apartamentos, vai ter a sede própria da escola de música Tom Jobim, hoje com 1.300 alunos, e creche com 12 salas. A rua Santa Ifigênia continuará aqui e terá um boulevar, mais de 200 árvores serão plantadas, na parte de baixo mais 60 lojas, enfim, um projeto urbanístico e arquitetônico muito bonito, para revitalizar e trazer as pessoas para morar no centro expandido de São Paulo”, disse o governador Geraldo Alckmin.

Tradição, boa comida e simpatia

 

Por Gianluca Florenzano

A padaria Santa Tereza, localizada na Praça João Mendes, 150, é um dos pontos mais tradicionais de São Paulo. Foi fundada em 1872, e possui o título de Patrimônio Histórico, mantendo a sua fachada tradicional.

Entrada da Padaria Santa Tereza. Foto: Victoria Bonachelli.

Antônio Pedrosa, 68, conhecido popularmente como seu Antônio, o funcionário mais antigo do estabelecimento – trabalha há 46 anos – nos conta que o comércio surgiu no bairro da Sé. “Ela ficava na Rua Santa Tereza, do lado do cine (cinema) Santa Helena, que era um cine bem famoso e bem popular”, diz ele. “Por isso que ela ganhou o nome de Santa Tereza”.

Antônio Pedrosa, 68, funcionário da padaria Santa Tereza. Foto: Victoria Bonachelli.

Em 1942, os donos da padaria compraram um imóvel na Praça João Mendes, mudando seu endereço. “Lá, (na Rua Santa Tereza) pagava aluguel, por isso resolveram comprar esse imóvel”, relata o funcionário. Haviam se mudado na época da revolução, “segundo o patrão meu, José Maria Rodrigo, já falecido, que me contou”. Ele prossegue, “na época da revolução era muito difícil trabalhar, pegavam muita fila para comprar pão e leite, e era racionado também, quantidade certa, não podia passar daquilo, nem mais nem menos, tinha um limite”. E termina, “já pensou se hoje fosse assim? Com essa população que cresceu tanto assim, o que seria de nós?”.

Em todos os anos que Antônio Pedrosa trabalhou nesse comércio, houve apenas uma única reforma no local. Ela ocorreu de 1999 para 2000, no segundo andar. Conforme seu Antônio relata, a padaria e o restaurante funcionavam em conjunto no primeiro andar, e o segundo andar servia apenas para guardar sucata velha. “Foi uma grande coisa, o que eles fizeram (a reforma)”, diz ele. “Eles não acabaram com a tradição do lugar, eles a mantiveram”.

Interior do restaurante Santa Tereza. Foto: Victoria Bonachelli.

A tradição da padaria Santa Tereza não fica apenas na arquitetura. Os pratos do dia, especialidades da casa, são o que mais atraem a clientela, garante o funcionário. O filé parmegiana, o filé a cubana, o filé grelhado e o filé de pescada são os principais. O primeiro filé é o mais requisitado pelos clientes e traz consumidores até de outras cidades e estados. “A Globo, uma época me chamou para eles gravarem a respeito do filé a parmegiana, e eu propaguei esse filé”, ele conta. “Veio gente do interior me procurar a respeito desse filé”, gente da cidade de Assis e “até uma senhorinha que veio do Paraná me procurar sobre esse filé”, sorri ele.

O único prato que a padaria deixou de fazer é o cassoulet, também conhecido como feijoada branca. Como se fosse uma feijoada tradicional, porém, ao invés do feijão preto o branco, e ao invés dos pedaços de linguiças, pedaços de frangos e também batatas. “Era um pratinho gostoso, você precisava ver”, comenta.

E o prato tinha uma boa fama mesmo. Até hoje clientes antigos vêm procurar seu Antônio atrás do cassoulet. Segundo ele, a feijoada branca era bastante requisitada. “Clientes antigos ainda me perguntam: ainda tem aquele cassoulet? ” e respondo “não, não tem”, narra.

Quadro sobre matéria da Folha de S. Paulo. Foto: Victoria Bonachelli.

Sem dúvida nenhuma, o funcionário mais antigo da padaria é tratado com muito carinho pelos clientes, inclusive pelo atual governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. “Às vezes ele chega aqui e logo vem me cumprimentar”, explica. “O Geraldo Alckmin gosta muito de mim”. E narra uma vez em que o governador veio na padaria: “Teve um tempo aí que ele perdeu as eleições para presidente, aí ele chegou e bateu ali no vidro, eu levantei cumprimentei ele que me disse: ‘estou desempregado seu Antônio, vim tomar um café aqui’”, lembra-se da história dando risada.

Apesar dos 68 anos, e aposentado desde 2007, o funcionário continua trabalhando no estabelecimento. Perguntado qual é a razão de ele estar ali a tanto tempo, ele responde: “Não tem motivo nenhum para eu não gostar daqui” e, além disso, “fui ficando tão próximo com os clientes, mas tão próximo, que hoje eu me sinto como se eles fossem meus amigos”.

A padaria Santa Tereza e seu Antônio vão seguindo a todo vapor, e conquistando cada vez mais clientes, seja tanto pela sua tradição, como pela comida, e principalmente pela sua simpatia.


Colaboradores da matéria: Edilson Henrique Muniz, Gianluca Florenzano, Augusto Oliveira e Victória Bonachelli

Gastronomia Tradicional do centro de São Paulo

Por: Edilson Henrique Muniz

Uma das primeiras lembranças que temos ao se comentar sobre São Paulo, inevitavelmente, é a gastronomia. A maior cidade do Brasil conta com uma infinidade de opções deliciosas para aquela hora em que a fome aperta e a barriga pede algo para preencher aquele vazio. Seja o bairro que estiver, sempre vai ter por perto uma cantina italiana, um bistrô francês ou uma bela padoca tradicional com o chefe de bigode vistoso e amante da velha Lusa. O mundo gastronômico se reúne na Terra da Garoa e todos têm um pedacinho de sua origem sempre por perto.

Segundo pesquisa realizada pelo Observatório do Turismo, existem mais de 20 mil restaurantes espalhados pela cidade com mais de 50 estilos de cozinhas, vindas de todas as partes do mundo. Turistas se sentem em casa quando vem à São Paulo. Ainda na pesquisa, foi divulgado que 70,1% dos turistas que chegam à capital paulista para negócios e eventos frequentam bares e restaurantes. Já com aqueles que desembarcam em busca de cultura e lazer, o número é ainda maior: são mais de 73% que procuram um bom lugar para fazer suas refeições.

O centro de São Paulo é um dos melhores lugares para se fazer essa viagem de sabores. Lá encontram-se tradicionais restaurantes com as melhores comidas do mundo todo. Um exemplo desses lugares é a Casa Mathilde – Doçaria Tradicional Portuguesa. Localizada na Praça Antônio Prado, zona central da cidade, a doçaria é uma marca de grande renome em Portugal, fundada no ano de 1850 por Mathilde Soares Ribeiro, numa vila portuguesa chamada Sintra. Seu carro-chefe sempre foram as queijadas, no qual pelo grande apreço do Rei D. Fernando II, tornou a Casa Mathilde fornecedora oficial dos quitutes para a Casa Real. Inclusive, concedendo o carimbo metálico que marcaram as mercadorias reais.

Foto por: Victória Bonachelli

 

Já no século XX, a doçaria foi comprada por alguns sócios portugueses que a trouxeram para São Paulo. Com chefes confeiteiros portugueses, não resta dúvida de que os doces de origem lusitana foram trazidas junto com as raízes do estabelecimento. Stefanie, 20 anos, funcionária do local no centro de São Paulo, valoriza a culinária e confia na qualidade do produto. Ela revela o doce mais procurado e alguns diferenciais da marca: “O pastel de Belém é o mais procurado, seguida pelas queijadinhas. A queijada Mathilde não vai queijo, ele é feito com amêndoas e canela”.

Fundada em 1888 na Praça da Sé, o Empório Casa Godinho é mais um exemplo de um comércio remanescente do século XIX na cidade de São Paulo. Aberta por um imigrante português de nome José Maria Godinho, começou como mercearia e, com o tempo, foi se adaptando e tornando-se, também, padaria. O Empório se orgulha de ter clientes antigos que vem em períodos festivos, mesclados aos novos que buscam algo tradicional na cidade. Os mais assíduos vão em busca de vinhos e queijos, clássicos da gastronomia portuguesa. Em 1924, a Casa Godinho se transferiu para a rua Libero Badaró, no centro da cidade, mais precisamente para o edifício Sampaio Moreira, considerado o primeiro arranha-céu de São Paulo e patrimônio tombado pelos órgãos de proteção ao patrimônio histórico. O prédio ainda abrigará, em breve, a Secretaria de Cultura do município.

Foto por: Victória Bonachelli

 

Com a Faculdade São Bento exatamente em frente ao estabelecimento, estudantes costumam ir atrás dos quitutes servidos pela Casa. O lanche mais vendido é o Jamon Espanhol, com base no presunto serrano. Mas seu principal prato é a empada. Feita com ingredientes tradicionais, foi considerada pela Revista Veja a melhor empada de São Paulo, permanecendo, até então, com o título. Além da gastronomia, Miguel Romano, 58 anos, dono da Casa Godinho, atenta-se à sua vizinhança. Já na Libero Badaró há muitos anos, acompanhou de perto as transformações do centro da cidade: “com a saída de grandes indústrias o centro se tornou um pouco mais abandonado. As que vieram eram de porte menor. Isso dificultou um pouco a clientela da loja, mas nada que não superamos”. A Casa Godinho estava de pé quando ocorreu a Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, que foi o movimento armado ocorrido no estado de São Paulo, entre julho e outubro de 1932.

A cidade de São Paulo é rica em diversos fatores e não decepcionará os amantes das cozinhas clássicas que vem à cidade aproveitar seus infinitos prazeres.


Colaboradores da matéria: Edilson Henrique Muniz, Gianluca Florenzano, Augusto Oliveira e Victória Bonachelli

Além do rock na Galeria do Rock

 Escrito por Carolina Gomes e Julia Castello Goulart.

Fotos de Nádya Duarte.

Podcast produzido por Beatriz Gimenez e Letícia Passos.

Panorama externo da Galeria do Rock

Quebrando um estigma de um lugar invadido pelo clássico rock n’ roll que vem desde a sua popularização por ser chamado de “Galeria do Rock”, o Centro Comercial Grandes Galerias, nome oficial do espaço, abre as portas para novas tribos de tendências presas no passado ou muito evoluídas no tempo, penteados mais contemporâneos  e estilos musicais diferentes.

Localizada no cruzamento da Rua 24 de Maio com o Largo Paysandu, mas precisamente esmagado entre dois prédios menos “culturais”, a galeria resiste fortemente ao tempo. A Galeria foi projetada na década de 50 pelo arquiteto Alfredo Mathias sendo inaugurado em 1963.  Diferente do que se imagina hoje, a Galeria inicialmente não possuía nenhuma loja para o público roqueiro, mas, sim, era conhecido pelo comércio têxtil e gráfico. Contudo, nesse período houve um aumento estrondoso de consumidores em  shopping centers, fazendo com que  a galeria se fechasse durante quase meia década. O centro comercial ressurgiu em 1976 com sua primeira loja de rock, chamada “Baratos Afins”, que dispunha de um acervo de CDs, vinis, DVDs e fitas cassetes.

O estabelecimento segue até hoje na galeria, porém com uma pegada diferente. O público-alvo mudou. No passado, as pessoas compravam os CDs para escutar os novos lançamentos de suas bandas rocks favoritas, agora a loja é  para quem quer algo mais colecionável, ter em mãos um vinil com um propósito de decorar a casa, algo vintage. Atualmente, a loja está nas mãos da filha do fundador, Carolina Calanca.

Mas não só de música vive a Galeria e o público que a frequenta. Com o aumento de movimentos preocupados com o uso de animais na indústria atual, desde alimentos a produtos de beleza, o veganismo surge como uma tendência forte no Brasil, crescendo 40% ao ano, dado divulgado pelo Estadão no início de 2017. A loja “Arte Vegan” na Galeria do Rock, prova o surgimento de um público cada vez maior que frequenta também a Galeria.  Para a dona do estabelecimento, Elimar Viana Pereira, a ideia inicial nunca foi ter uma loja vegana. A loja surgiu através da filha que começou a se interessar pelo tema e decidiu abrir uma pequena loja, do lado da loja de xerox  da mãe que ainda existe na Galeria. Elimar acabou tomando conta do negócio e virando a sua principal fonte de renda atualmente.

Entre CDs de vários estilos, de absorventes reutilizáveis e comida sem glúten, a Galeria do Rock também apresenta lojas para um outro tipo de público: os geeks.  Estes que um dia já foram chamados de nerds, lotam a Galeria principalmente nos finais de semana, para comprar estátuas colecionáveis dos seus personagens favoritos, na loja “Power Toys”. Segundo um dos atendentes,  Paulo Vinícius, os principais personagens comprados são dos filmes e quadrinhos de super-heróis, o que um dia já foi considerado “brinquedos de criança”, principalmente pelos meninos,  hoje é colecionado por diferentes pessoas, independente da idade e gênero.

 A Galeria do Rock apesar de ainda ser conhecida pelo público roqueiro e punk, hoje atrai diferentes tribos, se tornando um lugar muito heterogêneo e descontraído. É interessante como o público foi se modificando no decorrer da história da Galeria, mas hoje, permanece como um lugar diversificado e com grande importância cultural, no centro de uma das maiores cidades do país. Para saber mais sobre as lojas citadas e ouvir as entrevistas completas, não deixe de conferir o Podcast.